Algumas (péssimas) idéias congeladas em nitrogênio.
Imagine-se numa situação, em que, ao entrar no quinto sono, o telefone toca. Você acorda, vira pro lado, vê o diabinho fazendo um escândalo. Dá-lhe uma porrada, fazendo-o cair no chão. Você se lembra: é policial, está num caso e esperava por uma informação importante. Levanta-se da cama, abaixa e pega o celular. O escandaloso parou. Você pensa em olhar o identificador de chamadas e ligar para o último número que havia lhe telefonado.
Um problema: o telefone era bloqueado. O número não aparecia no display.
Você sibila alguns palavrões, coça o nariz, limpa os olhos e olha o horário no celular. São 5:34!
Perdera o sono. Queria levantar, mas não conseguia. A preguiça o impedia. Fez um esforço, levantou-se e foi em direção ao banheiro.
Um vento frio entrou no quarto. Sentiu um arrepio. Continuou andando. Sentiu um calorzinho no pé direito. Gostou e parou. Ficou ali parado um tempinho, até olhar pra baixo: cocô de seu cachorro. Tentou falar uns palavrões, mas não conseguiu. Escorregou e caiu sentado bem em cima da merda fresquinha.
Conseguiu: falou os palavrões que tentara antes. Fitou o cachorro. O bicho correu pra longe. Não se importou. Cuidava deles depois. Tinha de limpar o pé e o pijama, depois do incidente, cheios de merda.
Levantou-se e foi ao banheiro. Limpou os pés, jogou as roupas cagadas no chão do box e, ao abaixar para lavá-las, escorregou. Bateu a cabeça na torneira. A dor não foi tão forte.
Pegou a mangueira, jogou um jato d'água na merda, viu-a escorrer para dentro do ralo.
Lavadas suas roupas, colocou-as dentro da pia. Voltou ao box e notou a água avermelhada. Pôs a mão na cabeça e viu que o acidente com a torneira era um pouquinho mais grave. Tempo depois, o sangramento havia parado. Terminou o banho e vestiu-se.
Você, ao vestir-se, nota os dejetos do animal, que haviam, momentos antes, proporcionado um certo prazer, e, em seguida, nojo. Então, você já limpando a merda, escorrega. Tenta evitar o inevitável, mas murphy impede. Sente as fezes do cachorro espalhando-se em seu rosto, como em slow-motion.
Após limpar-se, você volta ao quarto e termina de limpar a cagada do cãozinho, que, assustado com o barulho feito do tombo na merda, viera ao quarto ver o que se passava. Você olha o cão, puxa-o pela perna, e leva-o à janela, jogando-o no gramado.
6h, você vai a cozinha, toma café, depois de chupar um cubo de gelo, já que ao tomar um pequeno gole, queimou a língua. Em meia hora, você termina seus afazeres e resolve sair um pouco, antes de ir ao trabalho. Abre a porta e tropeça no cachorro que se pôs a dormir ali no tapete, depois de ser jogado pela janela. O cão corre para dentro de casa, após ser chutado na barriga.
Você entra no carro, liga-o, acelera e sai da garagem arranhando a porta. Ao menos conseguiu evitar a lixeira.
Você vai à praia. Passa com o carro pela avenida, porém distrai-se com uma garota, na areia, de biquíni, e não vê que o caminhão em sua frente havia parado, batendo com o carro neste. Uma bancada de mármore, que estava na caçamba do caminhão, caiu no capô de seu carro. Você xinga a mãe do motorista do caminhão, que continua batendo com a cabeça no volante por ter que pagar o prejuízo da bancada quebrada. Você abre a porta do carro, mas não repara que outro caminhão vem na pista ao lado e arranca sua porta, e por pouco não leva seu braço. O motorista do caminhão, ao escutar o barulho, olha pela janela e vê você agachado ao lado do carro.
Você resolve, passado o susto, xingar o motorista cara-a-cara. Enquanto anda até a cabine, continua xingando a mãe do infeliz, mas para repentinamente ao descobrir que o filho duma rapariga de instantes atrás é um armário. Um armário não, um closet inteiro. Você prima por sua segurança e saúde, parando de xingar ele e sua, a partir de agora, respeitável mãe. Seu plano não deu muito certo: o motorista ouviu seus comentários sobre a reputação de sua mãezinha e sobre sua sexualidade. Ele sai da cabine, lhe puxa pela gola e pergunta como você quer morrer. Você clama por piedade, depois d'ele lhe jogar ao chão, perto da roda. Sorte sua. Você é rápido. Começa a correr para a areia, mas tropeça. O motorista te alcança e te enche de porrada e vai embora.
Enquanto você agoniza no chão, chegam alguns pivetes e roubam suas calças, com a carteira dentro. E o pior é que você ia pagar um empréstimo que devia a um agiota, que já estava lhe ameaçando de morte.
Tempo depois, você está no carro, já com suas calças, largadas pelos delinqüentes infantis a alguns metros de você. Você acha melhor ir logo para o trabalho, na tentativa de evitar que mais coisas desagradáveis lhe acontecessem.
No caminho, você repara que no topo de um prédio há uma pessoa. Parece que vai se jogar. Você para o carro, sai e passa pela multidão que olhava pra cima, metade gritando para o suicida fazer o que pretende. Você sobe até lá, enquanto, pelo celular, chama os bombeiros. Chegando lá, identifica-se e tenta conversar com o candidato a presunto. Você consegue evitar que o coitado olhe para baixo, enquanto os bombeiros aprontavam uma rede lá em baixo. Você então propõe descerem e conversarem lá em baixo. O suicida está decidido que quer pular. Você então diz que vai com ele, agarrando e levando para a beirada. Você tomba pra trás levando o ex-futuro cadáver. Os bombeiros conseguem colocar a rede na posição que vocês cairão. Sem problemas. Vocês são amortecidos. E um pedaço de reboco do prédio, chutado por você na hora de pular, também é amortecido, não pela rede, porém por sua perna. Por sorte, a ambulância dos bombeiros estava preparada.
Após uma hora no hospital, removendo pedaços de reboco de sua perna esquerda, você sai engessado, mancando e meio dopado. Um enfermeiro, maior que o motorista do caminhão havia lhe imobilizado e injetado alguma coisa que te acalmou bastante, já que a dor pelo pedaço de cimento perto da virilha impedia que você deixasse sua perna parada. Você não pode dirigir, então chama um táxi. Chegando no trabalho lembra que sua carteira havia sido roubada. Pede então para que esperasse que ia pegar dinheiro dentro da delegacia. Você foi. Com dificuldade, sobe a escadaria da frente. Pega o dinheiro emprestado com um colega e volta para pagar o taxista. Você toma bastante cuidado ao descer as escadas, mas no último, e miserável, degrau, um escorregão. Você bate com a cabeça no mesmo lugar que a torneira havia lhe machucado. O sangramento começa. Seus colegas então, correm para lhe socorrer. Põe-lhe de volta no táxi e levam para o hospital. Lá, depois de tratado, descobre que levou 17 pontos. Seus colegas o aconselham a voltar pra casa. Você não quer. Acha melhor trabalhar para evitar problemas.
No trabalho, você passa horas tentando analisar algumas informações do caso que está trabalhando, mas não consegue. As dores na cabeça e perna atrapalham. Você, além disso, a cada 10 minutos vai tomar um café, que algumas horas depois, junto com uma rosquinha velha que havia comido, resultaram num problema intestinal que o levaram correndo e tropeçando ao banheiro.
Meio desajeitado, você consegue fazer o que precisava. O difícil foi limpar-se. Mas ao fim, correu tudo bem. Exceto um escorregão que levou sua boca de encontro à torneira. Você se recompõe e vê no espelho: dois dentes quebrados.
Você grita todos os palavrões que conhece. Xinga de cadela caolha a mãe do servente, que deixou o chão molhado. Volta pra sua mesa carregando os dois pedaços de dente que conseguiu salvar de dentro do ralo.
Voltando pra casa, você passa pelo lugar onde machucou a perna e vê que seu carro estava sendo roubado. Você deixou-o aberto e com as chaves no painel. Você começa a chorar. Seu dia está uma merda. Queria chegar em casa.
Chegando em casa, você pega o dinheiro, paga o taxi e vai preparar algo para comer. Faz seu prato, coloca no microondas, põe em cima da mesa, pega os talheres e come.
Você vai para a sala, liga a televisão, senta no sofá e relaxa. Vê o cachorro chegando perto. Agora já não estava tão nervoso. O cão sentou-se ao seu lado. Você começou a acariciá-lo até que ambos adormeceram.
Uma hora depois você acorda assustado e vai pro quarto.
No caminho, um calor no pé.